A boca

maio 14th, 2012 § Deixe um comentário

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A chuva escorria feito baba nas bordas da janela fechada. A pequena garota, apaticamente boquiaberta, esperava por alguém como quem procura encurralar moscas com sua portinhola de 24 presas. A porta bateu, mas era o vento, que não foi convidado. O barulho da chuva acelerada acompanhava o embate do seu coração contra o peito da saudade. Talvez nem saudade fosse, só uma espera que é mais que objetivo, mas objetiva.

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O escuro das centopéias

abril 11th, 2012 § 2 Comentários

“O que te assusta?”

perguntou a pequena à mãe, que lia um livro recostada a sua poltrona de veludo azul. Tinha cabelos grisalhos (pois, se eu dissesse que tinha cabelos castanhos, seria demasiadamente clichê), que escorriam ao longo de seu rosto, fazendo uma parada suave em seus ombros, e pele clara, veias marcadas em seu pulso sensível. Os olhos não contavam história nem pareciam lê-las. A velha se encontrava meio perdida, mergulhada em seu exemplar de algum autor contemporâneo que tinha como inspiração Bukowski. Era sua primeira e única filha.

Não respondeu à pergunta.

A menina fitou-a por alguns instantes, percebendo que não haveria resposta. Não tirara os olhos de seu livro, embora não parecesse entendê-lo. Sabia que havia gerado algum transtorno para a vida da mãe. Não se sentia culpada. Nem culpava a mãe. Era quase como se naquele momento a vida não houvesse culpa.

“Eu tenho medo do escuro, de bolhas de sabão e de centopéias.”

ao que temos uma reação da mãe. Soltou as mãos, mas não largou o livro. Percebemos isso pelo simples fato de que vemos suas mãos soltas, gélidas e agora o livro fechado. Sem mover o resto do corpo, direciona sua mão de encontro ao rosto da filha. O contraste entre as peles gerava choques. A menina observava a mãe, relativamente jovem mas completamente despedaçada. “Quebrou-se” pensava “quebrou-se a minha pobre mãe, e não fora só seu útero posteriormente às inúmeras tentativas de fertilização in vitro”.

A menina não era mais menina. Tinha medo, agora, de ser como a mãe. Tinha medo, agora, de perder esse “agora” que passa a cada letra da palavra.

Virou-se e foi dormir no quarto, fechando sua janela sem fendas.

espada redonda

abril 2nd, 2012 § 2 Comentários

tenho inúmeras noites sem dormir. Chamo-as “sem dormir” pois um vizinho me tirou o poder de chamá-las de “insones” ao ter crises e internações devido às próprias noites sem dormir. e digo que tenho-as pois são de minha propriedade.

numa noite são várias as propriedades.

Meu minúsculo apartamento tinha apenas duas janelas. uma grande, aberta, bem localizada no cômodo central: não poderia restar-lhe outro destino senão dar vista a construção de um prédio, que mais tarde viria a tomar-lhe o sol. ao postar-me no parapeito da janela e olhar pra frente, identificava apenas uma grande parede acinzentada, com manchas pretas do tempo. abaixo, via o quintal de dona Norma, sempre bem organizado e esperando para alagar no período de chuvas. Era interessante observá-la cuidando de suas três crianças e lembrar de que meu destino não havia sido esse. paciência.

há, felizmente e porém, uma outra janela: esta localizada no banheiro, numa posição estratégica. ao apoiar a cabeça no encosto da banheira, permitia-me a visão da lua. Grata sou nas minhas noites de insônia por poder observar as fases da lua. Grata sou ao meu organismo por me manter acordada nos horários em que é possível a observação de tão precioso satélite. para mim, a mais valiosa propriedade da noite. Que eu me atrevera chamá-la de minha: minha lua, pois o desejo de alguma maneira também é posse. pode parecer brega falar-se em tal astro de tal luminosidade, que aquece amantes e ilumina noites, no entanto esta derrete-se em meu pensamento. ironia do destino vela rimar com bela, me proibindo de fazer poemas (me recuso às rimas pobres). A chama e a cera embelezam-se ao luar.

acabo-me no instante em que a lua passa. é apenas um esboço daquilo que não se prende às sílabas do agora. eu enquanto Eulália, uma primata, termino por ser presa. Presa pois: não tenho a transitoriedade da lua, não irradio nem me desencontro: além da lua, só tenho duas outras janelas.

das maneiras do ostracismo

fevereiro 9th, 2012 § 3 Comentários

a blusa branca um pouco rasgada no ombro esquerdo. Eu vejo só esse lado do corpo dela, pois ela deita sempre virada para a parede, o cabelo castanho esparramado pelo travesseiro. Não quer me olhar mais. ela não tá feliz comigo.

mas não me importa. enquanto existirem dois desses ouvidos que me vendem bem barato essa impressão de interesse, eu falo. eu preciso falar, mesmo que ela não precise ouvir. não preciso dos olhos escuros e nem dos lábios rubros que costumava tanto querer junto aos meus. eu preciso apenas da mais básica impressão de interesse, mesmo que este não exista.

Me diz qualquer coisa pra completar qualquer outra coisa com razão nenhuma. Isso porque ela não quer falar comigo, não tá feliz. continuo falando, mesmo que a infelicidade dela faça ela morrer. E se ela morrer – eu ainda estarei falando. Falando sobre o cadáver do ouvido que já não mais escuta. sussurro, de leve, pois a altura do que falo já não importa mais. Assim como ela não precisa de mim, eu preciso que ela escute.

 

 

 

(Inspirado num texto do meu Guilherme, minha eterna fonte de inspiração.)

(não é só o abajur que tem luz)

janeiro 26th, 2012 § 4 Comentários

Do alto, tudo pode ser visto exatamente como é – se ninguém estiver escondido debaixo de uma mesa, é claro. Então eu, em minha exata posição, sempre me encontrei privilegiado naquela sala que, sem mim, estaria sempre escura. Nada perturbava o tal local – nada além daquelas exageradas luzes do sol, de ego inflado, que apareciam das sete da manhã às oito da noite e me tiravam funções.

A paz fora instaurada há muito; nada além de uns gritos típicos de discussões de casal aconteciam por ali. Até que um dia, em altas horas da noite, a casa já adormecida, aconteceu. E aconteceu da pior maneira possível.

Uma mesa tombada. Cacos de vidro espalhados pelo chão. Água esparramada. E, ao lado, dois corpos mortos, sem o dom da vida. Parece uma charada, entretanto eu não posso esconder meu descontentamento ao ver dois seres tão queridos partindo dessa pra melhor. A cena daquele crime não me saíra mais da cabeça. Aquele absurdo me faria fechar meus olhos – se eu os tivesse -, porém infelizmente não pude me recusar a ser testemunha de tão desalmado infortúnio. O dia amanhece e os então cadáveres adormecem, parando de procurar desesperadamente por água. Luzes começam a circundar o ambiente, em eternos flashes desesperados para um diagnóstico da morte dos pobres seres.

Chegou o casal dono do apartamento. A mulher, ao ver os peixes ali, atirados, juntou-os com as mãos e disse, enraivecida, que o marido devia tomar mais cuidado por aí quando andasse no escuro. Não falou mais com ele pelo resto do dia. A mídia ao ver aquilo, observando atentamente lá fora com suas luzes, faria com que ele fosse julgado. No entanto, o verdadeiro culpado era eu. Eu, que de tantas vezes evitei problemas, evitei o escuro, daquela única vez havia falhado por não estar obedecendo minha função. O homem tropeçou na mesa e derrubou o aquário. Tudo isso pela falta de algo que iluminasse.

Muito embora eu não acredite em humanos simplesmente pelo fato de que eles não tenham brilho próprio e precisam que iluminem o caminho deles, me enchi de arrependimento. Ele precisava de mim.

Então no fim, tinha sido negligência minha. Tantas luzes e tablóides esperavam pela definição de homicídio culposo. A mulher ficara com raiva de mim e descontara no marido. No final alguém acabaria atrás das grades. Eu deveria ser indiciado, mas – o lugar de um ser refinado que facilitasse o percurso dos outros como eu não era a cadeia. Era o lugar de um humano sem iluminação.

“suas mãos são minhas mãos”

janeiro 25th, 2012 § 4 Comentários

a tinta azul seca do dedo anular escorria até o punho

o tecido áspero em contraste com o corpo aveludado

cicatriz profunda

ela chamava de “mãos de artista”

sem mesmo ter definido o formato pelos tantos livros de quiromancia

(acumulados pela passagem dos anos junto com os de astrologia)

“mãos suas”, era a definição correta

posse

suave

de um passado que não era o seu

o passado da tinta escorrida

da cicatriz do amor

ferida

Entre as paredes do museu

janeiro 20th, 2012 § 1 Comentário

Um olhar fixo, daquelas esculturas que encontramos em museu. Tentamos insistentemente “encontrar” o olhar da estátua. Fazer com que sejamos o objeto a ser fitado eternamente. Nunca dá certo. E era assim com ela, com aqueles brilhantes e redondos olhos azuis. Evitava encarar alguém diretamente, embora todos não conseguissem deixar de observá-la. Não escondiam nunca. Seu primeiro beijo foi com um cara de óculos escuros. Ela havia conhecido ele naquele dia e não lembrava do nome dele depois. Porém sabia que não existiria alguém em condição melhor.

Ela tinha dificuldades em todos seus relacionamentos. Havia criado uma espécie de príncipe encantado em sua cabeça. Logo que se apaixonava por algum homem de óculos, descobria uma série de defeitos irritantes. Irônico, talvez. Nenhum conseguia entrar na mira daquela jovem tão persistente com seus desejos. Influência dos contos de fada que ela costumava ler quando criança, em seu apartamento cheio de bonecas. Ela gostava delas, que também mantinham o olhar cego, evitando examinar cada detalhe de seu corpo que odiava. Guardava elas anos depois e, quando os namorados descobriam, costumavam implicar. Ficava angustiada e acabava dando um fim naquilo tudo. Seu ponto fraco. Até que um dia conheceu um escultor que se apaixonou perdidamente por ela. Ela sabia que não era exatamente aquilo que desejava, mas enquanto deixasse suas implicâncias e bonecas de porcelana em paz, tudo bem. Nem precisaria dos óculos escuros. Se tornou sua musa e fonte de inspiração. Isso irritava ela, pois ele passava horas a inspecionar cada detalhe de seu corpo. “Pelo menos ele elogia”.

Três anos depois, ele concluiu sua primeira e única pintura de sua amada – aquarela. Os olhos sorriam para quem quer que contemplasse o belo rosto. Não surgiu a idéia de fazer uma escultura, algo que obviamente talvez se relacionasse melhor com ela. Ele não havia observado o suficiente.

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